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40-41
Emílio Soares de Gouveia Horta Júnior
Hino a Santa Cecília
Soprano solo, violinos I e II, viola, baixos I e II, flautas I e II, clarinetas
I e II, trompas I e II, pistons I e II. Edição André
Guerra Cotta.
Este Hino, cujo texto integra as Vésperas das Virgens Mártires,
foi utilizado pelo compositor para homenagear Santa Cecília, possivelmente
como Hino de Novena. A música apresenta características
bastante semelhantes à Ária ao Pregador Maria, Mater
Gratiæ do mesmo autor, registrada no volume 4 desta série,40
sendo igualmente um claro exemplo de influência da ópera
italiana no gosto musical brasileiro do século XIX. Assim como
naquela obra, o texto litúrgico funciona quase como mero pretexto
para uma construção melódica altamente virtuosística
para o soprano, acompanhada por texturas orquestrais românticas,
densas e extremamente coloridas.
Horta Júnior foi certamente um autor atuante e conhecido nas Minas
Gerais de seu tempo, como o atestam as várias cópias de
suas obras nos mais conhecidos acervos mineiros. Foi deputado provincial
entre 1862 e 1864 e residiu em Itabira (MG), onde fundou a Sociedade Musical
Euterpe Itabirana em 1863.41
A fonte
utilizada para a presente edição é um conjunto autógrafo
elaborado em Itabira em novembro de 1864, pertencente ao Museu da Música
de Mariana. Assim como a Ária ao Pregador, o Hino a Santa Cecília
é dedicado a Francisco Vicente Vieira da Costa (fl.1854-1885),42
provavelmente atuante em Ouro Preto, onde residia e, no manuscrito, mencionado
como diretor de uma 'Companhia dos Plebeus'.
A composição de obras de tão elevado grau de dificuldade
técnica é um forte indício do aprimoramento a que
chegaram os músicos ouro-pretanos. Além disso, cabe ressaltar
o fato de o autor trabalhar sobre o texto litúrgico com grande
liberdade, alterando-o ao final das estrofes, sobretudo nas cadências,
seja por meio da inserção ou da simples repetição
de palavras (especialmente da palavra Jesu), seja pela omissão
de um verso inteiro. Paralelamente, a terceira estrofe, que na forma oficial
do Hino de Vésperas termina com o verso Hymnosque dulces personant
(Hinos que ressoam docemente), na obra de Horta Junior foi substituído
pelas palavras Post te cursitant, Jesu, Sponsus decorus, Jesu (Seguem-no,
ó Jesus, formoso esposo, ó Jesus!), parecendo representar
uma versão paralitúrgica local.
Notas
40
HORTA JÚNIOR, Emílio Soares de Gouveia. Maria, Mater gratiæ
(Ária ao Pregador). In: CASTAGNA, Paulo (coord.) Conceição
e Assunção de Nossa Senhora. Op. cit. v.4, p.197-232.
41
Cf.: COTTA, André Guerra. A música em Itabira do Matto Dentro:
reflexões sobre uma pesquisa de campo e leituras de fontes secundárias.
V ENCONTRO DE MUSICOLOGIA HISTÓRICA, Juiz de Fora, 19-21 jul. 2002.
Anais. Juiz de Fora: Centro Cultural Pró-Música; Rio de
Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2004. (no prelo).
42
As duas obras provavelmente se extraviaram do arquivo de Francisco Vicente
Vieira da Costa, em Ouro Preto. Segundo Curt Lange, esse arquivo foi queimado
em via pública, por volta de 1925. LANGE, Francisco Curt. La música
en Minas Gerais: un informe preliminar. Boletín Latino-Americano
de Música, Rio de Janeiro, ano 6, tomo 6, p.482, 1946 [publ. 1949].
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