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8-11
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita e Gervásio José
da
Fonseca (fl. 1870-1914)
Ladainha em
Lá menor
Quatro
vozes, violinos I e II, viola, baixo, flauta, clarinetas I e II, saxhornes
I e II, pistons I e II.
Edição Fernando Binder
Esta
Ladainha é um exemplo significativo da maneira pela qual boa parte
do repertório setecentista chegou aos nossos dias: por meio das
cópias produzidas no século XIX. Nesse processo de transmissão,
os copistas adaptavam o antigo repertório aos novos padrões
de gosto, aos novos instrumentos e às necessidades de ocasião.
A cópia mais antiga desta composição, cujo autógrafo
permanece desconhecido, data de 1807 e pertence ao Arquivo da Orquestra
Lira Sanjoanense (São João del-Rei - MG). A versão
utiliza, além das partes vocais, apenas violinos e baixo instrumental,
como se observa em seu frontispício: “com violinos e
basso”.14
Outra cópia, pertencente à Coleção Francisco
Curt Lange do Museu da Inconfidência (Ouro Preto - MG),15
acrescenta viola e um par de trompas àquela formação.16
As partes existentes no Museu da Música foram elaboradas por Gervásio
José da Fonseca por volta de 1875-1876, provavelmente no Serro
(MG), incluindo instrumentos de sopro característicos das bandas
do século XIX. Algumas partes indicam, além da data da cópia,
as expressões “feita” e “copiada”,
como se observa na tabela abaixo:
| Data
da cópia |
Parte |
Conjunto |
Indicação |
| 24/3/1875 |
Vln
I |
C-6 |
copiada |
| 5/7/1875 |
Pst
II |
C-5
|
- |
| 11/9/1875 |
SATB,
Bx I |
C-6 |
copiada |
| 24/3/1876 |
Cl
I |
C-2 |
feita |
| 25/3/1876 |
Vln
II |
C-2 |
copiada |
| 27/3/1876
|
Vla |
C-2 |
copiada |
| 27/3/1876 |
Cl
II |
C-2 |
feita |
| 27/3/1876 |
Sxhn
I |
C-2 |
feita |
| 1/5/1876 |
Bx
I |
C-2 |
- |
| 17/1/1884 |
Pst
I |
C-7 |
feita |
| - |
Fl |
C-7 |
- |
| - |
Sxhn
II |
C-3 |
- |
| - |
Bx
II |
C-4 |
- |
Com
tais informações, parece clara a intenção
de Gervásio José da Fonseca de distinguir as partes sim
plesmente copiadas daquelas que ele acrescentou por motivos práticos
ou estéticos. Comparando ainda as datas anotadas nos manuscritos
com as de algumas das festas de Nossa Senhora, verifica-se a proximidade
das datas assinaladas nas partes com as festas. Isso indica a possibilidade
de que as partes eram acrescentadas na medida em que havia uma oportunidade
para seu uso:
| Festa |
Data
da festa |
Data
das cópias |
| Purificação |
2
de fevereiro |
17
janeiro 1884 (Pst I) |
| Aparição
(em Lourdes) |
11
de fevereiro |
| Anunciação |
25
de março |
24,
25 e 27 março 1876
(Vln
I, II, Vla, CI I, II, Sxhn I) |
| Aparecida |
11
de maio |
1
maio 1876 (Bx I) |
| Carmo |
16
de julho |
5
julho 1875 (Pst II) |
| Nome
(Santíssimo) de Maria |
12
de setembro |
11
set. 1875 (SATB, Bx I) |
| Sete
Dores |
15
de setembro |
Comparando-se
as cópias do Museu da Música com as existentes em outros
acervos, observa-se que, além de acrescentar novos instrumentos,
o copista retirou da primeira seção os trinta e seis compassos
com as invocações Salus infirmorum até Auxilium
Christianorum, inserindo outra seção com nova música
sobre os mesmos textos, razão pela qual esse músico consta
aqui como co-autor da obra.
Nesta edição foram incluídas todas as partes elaboradas
por Gervásio José da Fonseca. Não foram consi-deradas
na edição a segunda parte do baixo instrumental I (conjunto
2) e o baixo instrumental II (conjunto 4), versões simplificadas
da parte aqui utilizada, pertencente ao conjunto 6. Talvez nem todo esse
instrumental tenha sido utilizado na mesma ocasião, tal a grande
disparidade entre o naipe de sopros do coro e das cordas, como se pode
observar no aparato crítico. Assim, as maiores interferências
foram realizadas nas partes dos instrumentos de sopro, procurando-se adequar
os sopros às vozes e às cordas, e não o contrário.
A presença de instrumentos de sopro e percussão em cerimônias
religiosas realizadas fora da igreja é bastante antiga no Brasil.
Um dos exemplos mais citados é a procissão descrita no Triunfo
eucarístico, de Simão Ferreira Machado, realizada em
24 de maio de 1733 na cidade de Ouro Preto, então Vila Rica.17
Naquela ocasião foram usados nada menos que dezoito instrumentos:
três clarins, três trombetas, oito charamelas, um pífano,
uma gaita, um tambor e uma caixa de guerra.
As
bandas, tal como as conhecemos hoje, surgiram no Brasil dentro das corporações
militares, por volta de 1810. Durante o Segundo Império, essa nova
forma de organização musical difundiu-se por todo o país.
Uma de suas funções, talvez a mais importante (pelo menos
em Minas Gerais),18
era prover com música as celebrações realizadas fora
da igreja, tal como faziam os antigos trombetas e charamelas. Mas, diferentemente
do que ocorreu com tais instrumentos, muitos instrumentos de bandas –
pistons, oficleides, saxhornes, saxofones, requintas e bombardinos –
e mesmo bandas inteiras entraram nas igrejas, em acréscimo ou substi
tuição aos instrumentos anteriormente utilizados, como fagotes,
clarins, trompas e oboés. Uma explicação para esse
fenômeno é a adequação da música oitocentista
à estética operística italiana, tão evidente
na música católica da segunda metade do século XIX.
Ao incluir as partes de sopro, pretendemos chamar a atenção
para o instrumental característico desse período, que, por
desinteresse ou desatenção, tem sido erroneamente avaliado.19
Além disso, queremos evidenciar a prática comum, no século
XIX, de modificar e interferir nas composições mais antigas,
aspecto ainda pouco estudado pelos musicólogos e editores de música
brasileira. Tais interferências, que muitas vezes possibilitaram
a preservação de obras e mesmo acervos que, de outra maneira,
estariam perdidos, merecem estudos aprofundados com métodos mais
adequados e não o simples julgamento baseado em uma estética
idealista.
Notas
14
Microfilme
disponível na Pontifícia Universidade Católica do
Rio de Janeiro, em: BRMGSav PUCRJ-19(0312-0329). Cf.: BARBOSA, Elmer Corrêa
(org.). Op. cit. p.129.
15
No
material da Coleção Curt Lange faltam as partes do coro
e violino II. Cf.: MUSEU DA INCONFIDÊNCIA (Ouro Preto, MG). Op.
cit. v.1, n.111, p.76.
16
CF.:
JUNQUEIRA GUIMARÃES, Maria Inês. Op. cit. n.29, p.355-356.
A obra também foi catalogada em: REZENDE, Maria da Conceição
[de]. Relação temática. Op. cit. p.21 [referência
n.28].
17
MACHADO,
Simão Ferreira. TRIUMPHO EUCARÍSTICO/EXEMPLAR DA CHRISTANDADE
LUSITANA EM PÚBLICA EXALTAÇÃO/DA FÉ NA SOLEMNE
TRASLADAÇÃO DO DIVINÍSSIMO/SACRAMENTO/DA IGREJA DO
ROSÁRIO/PARA UM NOVO TEMPLO DA/SENHORA DO PILAR/EM VILA RICA [...].
Lisboa: Oficina da Música, 1784. p. 21-27.
18
“[As
bandas] Existem quase em função da religião ou, mais
explicitamente, do culto católico romano, já que as atividades
das bandas, noventa por cento são as tocatas em festas da Igreja.”
BATISTA, Nylton Gomes. Bandas de música: a alma da comunidade.
Ouro Preto: Instituto de Artes e Cultura, Universidade Federal de Ouro
Preto, s.d. p.17.
19
O
caso do pistom é exemplar. Muitos manuscritos claramente identificados
para esse instrumento têm sido automaticamente classificados como
partes de trompetes em catálogos e edições de música.
No século XIX, entretanto, esses instrumentos eram diferentes,
pois o pistom possuía tubo cônico e de menor extensão
que o trompete, de tubo predominantemente cilíndrico. Ainda não
foi possível determinar quando os pistons foram abandonados em
favor dos trompetes, mas as evidências apontam em direção
à passagem do século XIX para o XX.
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